terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Um domingo qualquer...

Vou começar escrevendo sobre uma contratação que parece que não ocorreu, de tão surreal que foi, mas de fato é verdade. O ano era 2012 e o Botafogo havia contratado o grande jogador Seedorf. Depois de sua apresentação e com data marcada para sua estréia nos campos brasileiros e com a camisa do Botafogo, o clima era de festa e de muita expectativa. Mas a postagem não será sobre o jogador (talvez em uma futura postagem, não sei ainda...), mas sim sobre um fato que me chamou a atenção no dia e que fica martelando na minha cabeça, até este momento que escrevo esse texto.

Como disse, era estréia desse grande jogador com a camisa do Botafogo, uma contratação que nenhum torcedor imaginaria que pudesse ser verdade, o estádio Nilton Santos estava com um ótimo público, cerca de 30.000 torcedores. Sim eu sei que as pessoas irão dizer que o Botafogo não tem torcida e blá, blá blá, mas para a capacidade do estádio (cerca 45.000), foi algo excelente. Mas o foco não é esse.

O dia era 22 de Julho de 2012. Eu era sócio torcedor e me importava mais com futebol do que me importo hoje em dia. Aquele ano de 2014 (incluindo a Copa no Brasil) me fez ficar um pouco descrente do futebol. Mas na época ia em todos os jogos, e poder assistir um jogo do Seedão (como a galera chamava) animou a torcida.

Estádio cheio, e procuro um lugar para sentar próximo ao corredor de saída. Assim que me acomodo, chega um cara, um pouco mais velho que eu e pergunta se os lugares ao meu lado estão vazios. Eu digo que sim e ele pergunta se pode sentar com o filho dele, e eu faço um aceno positivo. Assim que ele senta e pede para o filho sentar ao lado, eu percebo que pelo sotaque dele de não ser carioca, na verdade tinha sotaque mineiro. Até ai tudo bem. Quando ele vira pra mim e diz:

- Tudo bem? Meu nome é fulano.
- Tudo bem cara, prazer.
- Nós viemos hoje pra estréia do Seedorf no Botafogo, mas eu nem botafoguense sou... - Disse ele rindo de forma sem graça.
- É mesmo? Mas não tem problema amigo. A torcida não é de confusão.
- Eu sei. Na verdade eu vim trazer o meu filho pra assistir. Ele é fanático pelo time.
- Que legal!
- Escuta amigo, posso te pedir um favor?
- Claro diga ai.
- Tem como você olhar o meu filho, enquanto eu vou no banheiro e compro algo para ele comer e beber?

Sinceramente não esperava que ele fosse pedir aquilo. Até porque ele tinha acabado de me conhecer, e o filho dele, deveria aparentar entre 10-12 anos. Aqui no rio, salvo engano, não temos o costume de fazer isso. Eu fiquei tão surpreso que disse que não teria problemas. Mas ai começam a surgir várias coisas na cabeça, como rolar algum tipo de confusão na torcida e eu ter que proteger o garoto, o pai não voltar (se é que era pai mesmo), ou outras coisas, sempre pensando no pior.

Nesse meio tempo, eu resolvo puxar conversa com o garoto:

- E ai, primeiro jogo que você assiste no estádio?
- Sim. Minha primeira vez, e hoje eu vim para torcer e ver o Seedorf.

O sotaque do menino era tão estranho que não conseguia entender de onde poderia ser. Mas continuei conversando com ele:

- Bacana, espero que um dia você venha com bastante frequência, e que nosso time ganhe hoje né.
- Sim. Eu sempre quis ver um jogo do Botafogo mas eu moro longe, e só consigo ver pela televisão. Quase minha família toda virou botafoguense por minha causa, menos o meu pai, que torce para o Atlético.

Quando o pai do menino retorna, ele dá para o garoto as coisas que ele comprou, e senta ao meu lado. Explica que o menino é americano (??!?) e que torce para o time desde que começou a acompanhar futebol. Continuamos conversando sobre outras coisas, as situações dos nossos times e por ai vai... 

O pai havia me dito que o menino nos Estados Unidos, fazia questão de andar com a camisa do Botafogo, "a 13 de Loco Abreu que fez aquele gol de cavadinha..." e que sempre tentava acompanhar os jogos por lá, mesmo com difícil acesso por lá (de nossa parte na distribuição de jogos, não deles).

Foi quando começou o jogo e aquele menino, olhava para as bandeiras admirado, tentava acompanhar as canções junto com a torcida, fazia o movimento das arquibancadas, aquele famoso senta e levanta quando um lance se aproximava do gol e fiquei imaginando, o tanto de acaso que fez esse menino virar torcedor botafoguense. Tem uma música da torcida que diz: "não escolho, fui escolhido.", e essa parte nunca tinha feito tanto sentido para mim. No final do primeiro tempo, o pai e o garoto mudaram de lugar, e o time acabou perdendo para o Grêmio, mas acho que para ele a derrota não importou.

Fiquei imaginando o que passava na cabeça desse garoto tão novo, de um lugar onde o Football domina e não o Soccer e que mesmo assim, resolveu torcer para um clube que não chamava (e ainda não chama) tanta atenção na mídia. Lembrei da felicidade de todos os torcedores quando o time entra em campo, quando eles fazem um gol, uma defesa, uma substituição. Lembrei dos tempos que era criança e o quanto gostava de assistir futebol.

Não sei se esse menino, hoje um adolescente ainda se importa com o clube, se o acompanha ou se ainda tem interesse no nosso futebol. Mas tenho certeza que aquele dia vai ficar na memória dele, por tudo que ele passou, o perrengue pra entrar no estádio, pra sair, o transporte pra voltar pra casa e tudo o mais que acontece em uma partida de futebol. O jogo em si não teve relevância, mas tudo de novo que esse menino pode observar.

Engraçado que vamos ficando velhos e esquecemos da novidade, tentamos parecer adultos, que agem de forma fria e esquecemos de sorrir por uma besteira, de chorar por algo que nos magoe, de reclamar ou de agradecer. Coisas simples que muitas crianças fazem, talvez com menor frequência pela cobrança de nós adultos de que eles devem carregar as responsabilidades que nós não queremos, de corrigir nossos erros, de serem melhores que nós, sem ao menos se divertir...

Enfim, um dia, que seria a estréia de um jogador, acabou ficando em segundo plano pra mim...















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